Conexsus

Agricultura familiar e cooperativismo são foco de oficina na Bahia

Estado da Bahia foi o que mais cadastrou organizações para o Desafio Conexsus

A capital da Bahia recebeu, nos dias 18 e 19 de setembro, a Oficina de Negócios Comunitários Sustentáveis, no Hotel Golden Tulip Rio Vermelho. Os participantes foram representantes de 21 cooperativas e associações de produtores que atuam em cadeias produtivas da alimentação saudável e sustentável; extrativismo e sociobiodiversidade; pesca artesanal; turismo de base comunitária, entre outras. A iniciativa é desenvolvida pela Conexsus – Instituto Conexões Sustentáveis, com o objetivo de desenvolver o ecossistema desses negócios em diferentes regiões do Brasil.

Todas as cooperativas participantes são baianas e a maioria integra a lista de organizações selecionadas para o Edital Aliança Produtiva do Programa Bahia Produtiva da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), empresa pública vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR). A Bahia é o estado brasileiro com maior número de imóveis rurais da agricultura familiar e também o que mais cadastrou organizações para o Desafio Conexsus – 147 dentre os mais de mil cadastradas em todo o país. “Pensando nessas características, a Conexsus e a SDR-CAR pretendem integrar as iniciativas do Bahia Produtiva e do Desafio para torná-las ainda mais efetivas e sinérgicas”, explica o integrante da Conexsus e mediador da oficina em Salvador, Paulo Guilherme Cabral.

Oficina reuniu organizações baianas envolvidas, em sua maioria, com agricultura familiar e agroecologia. Foto: André Fofano

“Na oficina foi apresentado um hall metodológico que vem somar ao que a CAR vem desenvolvendo aqui. Assessorar o acesso ao mercado é uma atividade nova, principalmente para o governo. Vemos nessa aproximação com a Conexsus um processo de construção de uma estratégia metodológica de gestão pública que possa auxiliar esses empreendimentos”, complementa o assessor especial da CAR, Ivan Leite Fontes. O Bahia Produtiva, sobre o qual Fontes falou durante o evento, é um programa de inclusão produtiva que opera por meio de Acordo de Empréstimo com o Banco Mundial e prevê o apoio para que organizações produtivas da agricultura familiar possam se estruturar e ter acesso ao mercado.

Ivan Leite, da CAR, vê a aproximação com a Conexsus como construção de metodologia de gestão pública. Foto: André Fofano

Também participaram da oficina associações de produtores quilombolas e extrativistas marinhos. A variedade de produtos trabalhados pelos empreendimentos – que, em sua maioria, praticam a produção orgânica e agroecológica – chamou a atenção: café; mel; castanha de licuri; chocolate; banana chip; flocão de milho; geleia e cerveja de umbu; queijo e iogurte; doces; pescados e outros itens estavam entre os produtos das organizações.

Cooperativismo e organizações conectadas

Os negócios participantes estão se integrando para comercializarem seus produtos por meio da Central da Caatinga e do Entreposto de Comercialização que será implantado em São Paulo, mostrando que a rede formada entre eles gera benefícios na margem de venda dos envolvidos. A Central da Caatinga reúne cooperativas e grupos que trabalham com produtos do extrativismo sustentável do bioma – como queijos de leite de cabra, derivados de frutas da caatinga como umbu, maracujá do mato, licuri, mel de abelha, castanhas, achocolatado, cervejas artesanais, licores e cachaças –, em uma proposta de convivência com o semiárido. A iniciativa comercializa produtos no Armazém da Central da Caatinga, em Juazeiro, Território de Identidade Sertão do São Francisco (BA).

De acordo com o presidente da Central, Adilson Ribeiro dos Santos, essas ações ajudam a levar a agricultura familiar para uma produção em grande escala e a popularização em todas as esferas da sociedade. “Precisamos fazer com que a população compreenda a importância de se alimentar com base em produtos saudáveis e justos, que garantam valor nutricional e qualidade de vida para quem consome e quem produz”, resume.

Popularizar a agroecologia na sociedade é um dos benefícios de atividades como a oficina, segundo Adilson Ribeiro, da Central da Caatinga. Foto: André Fofano

A oficina também é palco para compartilhar experiências e desafios enfrentados pelas organizações. No caso da Central da Caatinga, Adilson aponta como principal desafio a estruturação da gestão e da contabilidade dentro da própria organização, já que a legislação que rege a comercialização pelo cooperativismo no Brasil é bastante específica e muitas vezes os escritórios contábeis não têm conhecimento sobre o terceiro setor. “Temos essa deficiência e a ideia é montarmos essa estrutura dentro da instituição. Assim a gente pode garantir nossos direitos sem deixar de cumprir com os nossos deveres”, explica.

Muitas organizações participam também da União Nacional das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes) e da Associação das Cooperativas de Apoio à Economia Familiar (ASCOOB). “Isso fortalece o cooperativismo da agricultura familiar e o cooperativismo de crédito”, comenta Paulo Cabral.

Diretora financeira da Central de Cooperativas de Comercialização da Agricultura Familiar e Economia Solidária Arco Sertão, a Arco Sertão Central, Hilda Mercês da Silva, explica sobre a bagagem de aprendizado trazida pela oficina. “Por mais que a gente seja uma rede de cooperativas, nada se compara a estar frente a frente com o empreendimento, com a pessoa que lida e vive o dia a dia daquela rede ou central. Foi muito produtivo o encontro”, relata. A Arco Sertão tem foco no incentivo à agroecologia e à agricultura orgânica por suas filiadas.

Produtos das organizações participantes são expostos durante a oficina. Foto: André Fofano

Mesclando processos

Outro fato de destaque da oficina foi a percepção dos participantes de que eles nem sempre precisam optar por uma solução pronta e que podem mesclar alternativas para gerar o resultado mais adequado a cada empreendimento. Isso pode ser visualizado com clareza durante as atividades relacionadas aos desafios de finanças. “Os participantes compartilharam da visão de buscar financiamento híbrido, combinando várias modalidades, para garantir a sustentabilidade de seus negócios comunitários”, aponta a diretora de operações da Conexsus, Carina Pimenta. Nesse caso, por exemplo, os envolvidos optaram por buscar recursos próprios, crédito e capital por doações de projetos como meios de acessar recursos. Tudo em conjunto, sem escolher apenas um meio.

Carina Pimenta, da Conexsus, destacou a solução por financiamento híbrido apontada por um grupo de participantes. Foto: André Fofano

A diversidade e a inclusão presentes no perfil social das organizações participantes também chamou a atenção. A integrante da Associação Mãe da Reserva Extrativista de Canavieiras (AMEX), Luciene Almeida, destaca a importância de incentivar a independência das mulheres e o benefício que participar da oficina vai trazer para a organização da qual faz parte. “Nossas organizações trabalham com produtos que precisam de rigorosas exigências sanitárias. Estamos implementando agora o Empório Extrativista e precisamos de orientações para comercialização de produtos pesqueiros e não pesqueiros. A Conexus pode nos apoiar na resolução desse problema”, explica.

Também foram parceiros na realização desta oficina a Tabôa Fortalecimento Comunitário, a Rede Povos da Mata, a Associação APEB e a Central do Cerrado.

Incluir as organizações de base feminina é visto como essencial pela participante Luciene Almeida, da AMEX. Foto: André Fofano

Desafio Conexsus 2018

A Oficina de Negócios Comunitários Sustentáveis faz parte de um ciclo de encontros que teve início em junho, em Belém (PA), e está sendo realizado em mais 12 cidades que reúnem, até outubro, representantes de todas as regiões brasileiras. Além disso, serão realizadas visitas técnicas a algumas organizações para compreender melhor o funcionamento e produção delas. Ambas as atividades devem abranger cerca de 300 participantes do Desafio Conexsus.

Os mais de mil negócios cadastrados na iniciativa, entre os meses de maio e julho, compõem o Mapa e o Panorama de Negócios Comunitários Sustentáveis no Brasil, aberto para consulta online pública pelo site www.desafioconexsus.org. As organizações interessadas em participar do Desafio ainda podem se cadastrar no site para acompanhar oportunidades futuras, bem como integrar a rede nacional de negócios comunitários sustentáveis que está em formação.

Uma das expectativas é que estes empreendimentos, os parceiros cocriadores da iniciativa e outras organizações que compõem esse ecossistema de negócios sustentáveis tornem-se uma rede ativa de fomento ao desenvolvimento sustentável, com a possibilidade de atrair e criar outras oportunidades além das já previstas para o Desafio Conexsus 2018.

Após a realização das oficinas, 70 participantes serão convidados a participar do Ciclo de Desenvolvimento de Negócios Comunitários Sustentáveis, que conta com uma jornada de aceleração, oficinas de modelagem de negócios, laboratório de soluções de acesso à comercialização e mercados, e laboratório de crédito e soluções financeiras.

São parceiros estratégicos da Conexsus: Good Energies Foundation, Grupo Pão de Açúcar, por meio do Instituto GPA, IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas e Moore Foundation,Fundo Amazônia, Fundo Vale, Fundação Certi, GIZ /Cooperação Alemã para o desenvolvimento sustentável, Climate and Land Use Alliance (CLUA) e União Nacional das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes).

São parceiros cocriadores do Desafio Conexsus: Associação dos Pequenos Agricultores do Oeste Catarinense (APACO), Central da Caatinga, Central do Cerrado, Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas Costeiras e Marinhas (Confrem), Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Coomafitt, Ecoa – Ecologia e Ação, Entrenós Planejamento Estratégico, Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS), Instituto BioSistêmico (IBS), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio),Instituto Centro de Vida (ICV), Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável (IDESAM), Instituto para o Desenvolvimento Sustentável e Cidadania do Vale do Ribeira (IDESC), Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Instituto Gaia, Instituto Peabiru, Instituto Terroá, Instituto Socioambiental (ISA), IPAM Amazônia, Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Pacto das Águas, Sentinelas da Floresta, SOS Amazônia e Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ).

Participantes da Oficina de Negócios Comunitários Sustentáveis de Salvador. Foto: André Fofano

Confira todas as imagens, do fotógrafo André Fofano, na galeria abaixo.

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