Ana Placidino e os saberes ancestrais nos negócios comunitários

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Ouvindo a voz suave de Ana Placidino, pode ser difícil entender de onde vem tanta força na luta pelo reconhecimento da cultura Bantu no Brasil e sua capacidade de articulação com outros povos tradicionais.

No entanto, seu trabalho na Ilha de Maré – Salvador, Bahia – foi fundamental para a criação, em 2000, da Associação Nacional Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu – ACBANTU –, com o objetivo de reunir pessoas e grupos a fim de dar visibilidade à história da civilização negra brasileira.

Os Bantus e o cooperativismo

Os Bantus foram os primeiros africanos escravizados que chegaram ao Brasil, mas por muito tempo a comunidade Bantu foi invisível no país. Marcada pela inovação, a cultura Bantu sempre soube se reinventar, resistir, criar novos caminhos de liberdade e novas formas de produzir. Na diáspora para as Américas, essa capacidade garantiu que os ancestrais e encantados dos povos originários do Brasil passassem a fazer parte das tradições Bantu.

Ainda hoje é possível perceber no trabalho da cooperativa a capacidade ancestral dos povos Bantu de se comunicar e realizar trocas com a diversidade cultural brasileira. A ACBANTU está presente em 17 estados e é composta por mais de 3,8 mil povos de terreiro de diversas etnias, 48 comunidades quilombolas do estado da Bahia, além de comunidades extrativistas, de pescadores artesanais, de grupos culturais de capoeira angolana e sambas de roda.

A atuação de Ana Maria Placidino foi determinante para expandir a presença da associação e para dar visibilidade para a cultura bantu.

A associação esteve por trás de uma extensa pesquisa iniciada em 2003 sobre o candomblé de origem Bantu, a capoeira angola, rodas de samba e outras grandes influências da cultura Bantu presentes ainda hoje no cotidiano brasileiro, mas que permaneciam invisibilizadas.

A convite da Fundação Cultural Palmares, ACBANTU foi também a responsável pela organização de uma distribuição emergencial de alimentos para povos de terreiros na Bahia. A iniciativa foi realizada no âmbito do projeto Fome Zero em 2004, ano em que era celebrado uma importante divindade da cultura bantu – o inquice Tempo. Sua realização tornou visível a capilaridade e a intensa relação comunitária promovida entre os terreiros de candomblé e umbanda de todas as nações.

As famílias que compõem esses terreiros foram cadastradas, e com esses dados em mãos, foi possível realizar o mapeamento das potencialidades produtivas de cada um desses núcleos. Foi a partir desta experiência que a ACBANTU passou a trabalhar no eixo de etnodesenvolvimento, coordenado por Ana Maria Placidino.

Atualmente, a ACBANTU colhe os frutos dessa ação. Por causa das doações em 2004, as famílias beneficiadas hoje são agricultoras familiares. Todos têm a Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP), já comercializam para o Programa de Aquisição de Alimentos e estão se organizando para acessarem o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

As relações humanas e o meio ambiente como centro do modelo

Outro fruto do trabalho de Ana Maria Placidino é a criação da Cooperativa Kitanda Bantu, que tem 78 famílias associadas. Elas trabalham em hortas, pomares e cozinhas comunitárias. Ana Maria resume o eixo como a essência dos valores do patrimônio cultural da etnia. “Nós visamos construir um modelo de desenvolvimento sustentável, justo e solidário, em que as relações humanas e o meio ambiente sejam o centro, e não o lucro.”

Ela define esse modelo como uma forma de trabalhar que não é predatória e respeita o meio ambiente. É nesse eixo que são articulados os núcleos de beneficiamento, as hortas, os pomares comunitários agroecológicos, o artesanato e a produção cultural que mantém e divulga a existência das práticas Bantu.

“Nossa produção de alimentos deve ser agroecológica e que respeite a natureza. Para que, no momento da comercialização, o preço também seja justo, gerando segurança alimentar e nutricional para quem não tem acesso a alimentos saudáveis.”

A Conexsus participa da história e da ACBANTU. Ao garantir à associação o acesso ao crédito do Fundo Emergencial da Covid-19 e por meio da assessoria de negócios, o trabalho da Conexsus em conjunto com a cooperativa garantiu a manutenção de renda aos associados que tiveram suas práticas comerciais interrompidas durante a pandemia, além de promover e planejar os caminhos para a retomada.