Cecafes cria fundo para financiar transição para a produção orgânica

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Ideia surgiu durante a Jornada de Aceleração da Conexsus, cooperativa gaúcha está reforçando área de assistência técnica com autofinanciamento e crédito do Fundo Socioambiental Conexsus

O caso em resumo

    • Mecanismo de autofinanciamento foi proposto pela Conexsus, que mantém parceria com a Cecafes desde a Jornada de Aceleração, realizada em 2019.
    • Apoio na negociação de crédito do Pronaf e concessão de empréstimo para custear assistência técnica também fizeram parte da parceria com a Conexsus.
    • Processo de conversão para o cultivo de laranja orgânica ocorre inicialmente em área de 30 hectares distribuídos em cinco municípios.

Um problema comum a muitas organizações comunitárias é a inexistência de um fundo de reserva para situações de maior aperto financeiro, que podem ser causadas por um evento climático, como a seca que derruba a produção agrícola dos associados, ou adversidades sanitárias, como a atual pandemia da Covid-19.

Como um dos frutos promissores da parceria estabelecida há mais de um ano e meio com a Conexsus, a Cooperativa Central de Comercialização da Agricultura Familiar de Economia Solidária (Cecafes) adotou um mecanismo de autofinanciamento para fortalecer sua assistência técnica e a transição de dezenas de agricultores familiares para a produção de laranja orgânica na região do Alto Uruguai, no noroeste do Rio Grande do Sul. A Cecafes foi uma das 22 organizações participantes da Jornada de Aceleração do Desafio Conexsus, realizada em 2019.

Numa assembleia realizada em fevereiro último na sede da Cecafes, em Erechim, com os representantes das 15 cooperativas singulares associadas, foi aprovada a criação de um fundo de sustentabilidade e assistência técnica. “O fundo foi uma proposta da Conexsus, que atende a uma necessidade antiga dos cooperados de contar com recursos para contratar assistência técnica e promover a transição agroecológica. Desejamos nos tornar referência de produção de laranja orgânica no Brasil”, afirma Roberto Balen, presidente da entidade.

Estão sendo destinados ao mecanismo o correspondente a 1% das vendas globais da cooperativa e um centavo por quilo de laranja vendido. A meta para 2020 é que o fundo arrecade entre R$ 120 mil e R$ 140 mil. “Isso dá para girar a cooperativa pelo menos por um ano, pagando despesas com assistência técnica, transporte, alimentação, hospedagem e logística”, prevê Balen.

Crédito destravado

O primeiro resultado prático da parceria aconteceu antes mesmo da terceira e última imersão da Jornada, em agosto de 2019. A equipe da Conexsus ajudou a impulsionar as conversas entre Cecafes e a cooperativa de crédito Cresol Sicoper que levaram à aprovação de crédito da linha Pronaf Agroindústria para a cooperativa. Foi o primeiro caso de sucesso do eixo de Soluções Financeiras Inovadoras da Conexsus.

“A Conexsus ajudou no processo de convencimento da Cresol [sobre a pertinência do projeto de crédito da Cecafes].” Graças à sua melhor condição financeira com os recursos do Pronaf, a organização conseguiu adquirir um caminhão com carroceria baú, que ampliou em cerca de 30% a capacidade de transporte dos produtos dos associados das cooperativas singulares até os pontos de venda.

Para apoiar o objetivo da entidade de tornar mais robusta sua assistência técnica, o Fundo Socioambiental Conexsus aprovou no fim de março passado a liberação de um empréstimo de R$ 141.500,00 para a Cecafes. A assistência técnica é tratada na entidade como instrumento fundamental no processo de transição para os pomares de laranja orgânica.

Balen acredita que o fundo permitirá à Cecafes dispensar as duas últimas parcelas do financiamento disponibilizado pelo Fundo. Desse modo, a organização acertaria com a Conexsus o pagamento apenas da primeira parcela, de R$ 81.500,00, com juro anual de 10%.

Laranja orgânica certificada

A Cecafes espera iniciar ainda em 2020 o processo de certificação participativa da laranja orgânica destinada ao mercado interno pela Rede de Agroecologia Ecovida. Em 2021, a organização pretende obter a certificação da laranja orgânica voltada à exportação com o Instituto Biodinâmico (IBD). Segundo o presidente da entidade, os produtores poderão conseguir prêmio em torno de 20% no preço da laranja orgânica certificada.

Atualmente, cerca de 400 famílias associadas a cooperativas singulares que integram a Cecafes plantam laranja em aproximadamente 500 hectares situados em nove cidades do Alto Uruguai. Dessa área, 30 hectares passam atualmente pelo processo de conversão de lavoura convencional para o cultivo orgânico. São 30 famílias, distribuídas em municípios como Marcelino Ramos, Severiano de Almeida, Mariano Moura, Alpestre e Itatiba do Sul, entre outros.

A primeira safra de laranja orgânica certificada da Cecafes deverá alcançar em torno de 2.000 toneladas em 2021, que serão vendidas no mercado interno, e 6.000 toneladas no ano seguinte, quando metade será direcionada ao mercado externo.

O cultivo de laranja orgânica é uma ramificação do projeto “Laranja do Futuro”, promovido pela entidade em parceria com cinco de suas cooperativas singulares, a Biocitrus, uma das principais fabricantes de óleos essenciais no Brasil, e a suíça Firmenich, uma das maiores companhias de aromas e fragrâncias do mundo. Balen estima que os cooperados entregarão este ano perto de 15.000 toneladas de laranja (convencional), 30% a 40% mais que na safra de 2019.

“A laranja salvará o ano da cooperativa”, diz o presidente da Cecafes. Ele prevê que a entidade fature de R$ 10 milhões a R$ 12 milhões em 2020, um salto bastante expressivo sobre os R$ 7,5 milhões vendidos em 2019.

É uma circunstância distinta da que vem atormentando as finanças de várias cooperativas de agricultores familiares, que sofreram quedas significativas na receita por causa da pandemia causada pelo novo coronavírus. Em razão da suspensão das aulas presenciais desde março, muitas prefeituras interromperam suas compras de produtos da agricultura familiar destinados à merenda escolar, que chega a representar a maior parte do faturamento de inúmeras cooperativas.

Nota: Entrevista realizada em 05 de março de 2020.