Comer bem começa antes do prato

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No Dia Mundial da Alimentação, entender o caminho percorrido pelos alimentos também ajuda a compreender os desafios para construir sistemas alimentares mais sustentáveis.

Quando pensamos em alimentação, é natural que a primeira imagem seja o que chega ao prato. Mas essa é apenas a etapa final de uma cadeia que começa muito antes, nos territórios onde os alimentos são produzidos, coletados, manejados ou pescados.

Antes de chegar às feiras, mercados, escolas, restaurantes e casas, um alimento depende de pessoas, conhecimento, recursos naturais, financiamento, infraestrutura, beneficiamento, armazenamento, transporte e acesso a mercados.

É nesse percurso que alimentação e sociobioeconomia se encontram.

 

Da biodiversidade para a alimentação

Açaí, castanha, cacau, pirarucu, mel, baru e pequi são alguns exemplos que ajudam a tornar essa relação mais concreta. São produtos associados a diferentes biomas e modos de produção e que movimentam cadeias formadas por agricultores familiares, povos indígenas, comunidades tradicionais, cooperativas, associações e outros negócios comunitários.

A sociobioeconomia parte justamente da possibilidade de gerar valor econômico a partir da biodiversidade e dos conhecimentos dos territórios, conciliando geração de renda, inclusão socioprodutiva e conservação.

Isso muda a forma de olhar para o alimento. Não importa apenas o que é produzido, mas também quem produz, como produz, em quais condições e quanto do valor gerado permanece nos territórios.

 

 

Quatro dados para entender quem está antes do prato

Os números ajudam a dimensionar esse sistema:

  • 77% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros são classificados como agricultura familiar, o equivalente a cerca de 3,9 milhões de estabelecimentos. Fonte: IBGE, Censo Agropecuário 2017.
  • 10,1 milhões de pessoas trabalhavam em estabelecimentos da agricultura familiar, correspondendo a 67% das pessoas ocupadas nos estabelecimentos agropecuários do país. Fonte: IBGE, Censo Agropecuário 2017.
  • 45% dos recursos federais do Programa Nacional de Alimentação Escolar devem ser destinados à aquisição direta de alimentos da agricultura familiar a partir de 2026. A medida aproxima produção familiar e alimentação escolar por meio das compras públicas. Fonte: FNDE.
  • 13,4% dos alimentos produzidos globalmente são perdidos depois da colheita e antes de chegar ao varejo. O dado ajuda a lembrar que produzir é apenas uma das etapas necessárias para que o alimento efetivamente chegue ao consumidor. Fonte: FAO, 2026.

Esses números revelam diferentes partes de uma mesma questão. O sistema alimentar depende de quem produz, mas também das condições existentes para que essa produção seja armazenada, processada, transportada, comercializada e consumida.

Produzir é só o começo

Para um pequeno produtor ou um negócio comunitário, ter um bom produto não garante, sozinho, sua chegada ao mercado.

É preciso capital para financiar a produção. Estrutura e conhecimento para beneficiamento e armazenamento. Logística para vencer as distâncias entre territórios produtores e centros consumidores. Regularização para acessar determinados mercados. Informação para formar preços. E compradores interessados em estabelecer relações comerciais viáveis.

As políticas públicas também ocupam um espaço importante nesse percurso. Programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) podem conectar a produção da agricultura familiar a mercados institucionais, gerando demanda e ampliando o acesso a alimentos.

Por isso, discutir alimentação também exige olhar para questões que nem sempre aparecem quando vemos o produto pronto: crédito, assistência técnica, infraestrutura, logística, compras públicas e acesso a mercados.

O que os dados da Conexsus mostram na prática

A atuação da Conexsus permite observar como essas diferentes peças se conectam:

  • 57 organizações na Amazônia estão associadas a cadeias como cacau, castanha, pirarucu e açaí. No Cerrado, são 16 organizações, trabalhando com mel, baru e pequi. O relatório também registra organizações ligadas à horticultura na Caatinga e Mata Atlântica e ao arroz no Pampa. 
  • R$ 18,5 milhões em negócios foram movimentados em 2025 a partir dos arranjos comerciais estruturados pelo Programa de Mercados Responsáveis, que trabalha na conexão entre compradores e fornecedores comunitários.
  • 140 pessoas de 108 organizações participaram de quatro oficinas sobre o PNAE, enquanto dois fóruns sobre o PAA envolveram 82 negócios locais na identificação dos gargalos enfrentados para acessar o programa na Amazônia.
  • 80 tipos de produtos da sociobioeconomia, provenientes de 62 cooperativas, foram comercializados na Casa da Sociobioeconomia durante a COP30. Entre as cadeias apresentadas estavam açaí, cacau, óleos vegetais e castanha. 

Os números mostram que fortalecer a sociobioeconomia não significa atuar apenas na etapa da produção. Significa criar condições para que esses produtos circulem, encontrem compradores, gerem renda e mantenham economicamente viáveis os modos de produção associados aos territórios e à biodiversidade.

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Alimentação também é uma questão de mercado

Empresas, governos e consumidores ajudam a determinar quais cadeias encontram espaço no mercado. Para os negócios comunitários, ter compradores recorrentes e relações comerciais adequadas pode representar previsibilidade de receita, capacidade de planejamento e melhores condições para investir na produção.

É por isso que aproximar oferta e demanda é uma das frentes estratégicas da sociobioeconomia. No caso da Conexsus, o Programa de Mercados Responsáveis atua com assessoria comercial aos negócios comunitários, compras responsáveis e inteligência de mercado. O objetivo é reduzir barreiras entre quem produz e quem compra e criar relações comerciais capazes de gerar renda nos territórios. 

Essa conexão também ajuda a entender por que o debate sobre alimentação não termina no campo.

Comer bem começa antes do prato

Antes do alimento existe um território.

Existem pessoas produzindo.

Existem conhecimentos construídos ao longo de gerações.

Existem recursos naturais que precisam continuar disponíveis.

E existe uma cadeia econômica que precisa funcionar.

Fortalecer esses caminhos é parte da construção de sistemas alimentares capazes de combinar produção, geração de renda, conservação da biodiversidade e acesso a alimentos.

Porque o que chega ao prato conta uma história que começou muito antes dele.

 

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