Em meio à pandemia, ribeirinhos do sul do Amapá garantem safra recorde de castanha-do-pará

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A Comaru estava sem capital de giro e, com o apoio financeiro da Conexsus, pôde se preparar para a maior produção já registrada desde a criação da cooperativa

Mais um período de coleta de castanha-do-pará se iniciou e, dessa vez, a apreensão por outro ano difícil foi substituída pela esperança de atingir a marca de 25 toneladas de óleo de castanha, a maior produção já registrada desde a criação da Comaru – Cooperativa Mista dos Produtores Extrativistas do Rio Iratapuru, no sul do Amapá.

O sentimento é compartilhado pelos extrativistas que compõem a Comaru, entre eles, Erivaldo da Silva Nascimento, 32 anos, que desde criança frequenta os castanhais e aprendeu com os pais as habilidades necessárias para ser um bom coletor. Todos os anos, Erivaldo, acompanhado da esposa Maria Monteiro Rodrigues, 32 anos e dos três filhos, passa meses embrenhado na floresta para coletar castanhas e garantir o sustento da família.

O início do período da coleta, em 2020, coincidiu com o começo da pandemia do Coronavírus e suas incertezas e restrições impactaram diretamente a atividade, gerando um resultado abaixo do esperado. Enquanto em 2019 a Cooperativa teve um bom desempenho, produzindo 20 toneladas de óleo de castanha, em 2020, o volume foi reduzido para menos da metade desse total, cerca de 8 toneladas de óleo de castanha.

Devido à safra ruim no ano passado, a Comaru estava sem capital de giro para executar as atividades em 2021 e o apoio financeiro da Conexsus foi fundamental para que a Cooperativa pudesse fazer o planejamento e contratar um número maior de castanheiros, 300 no total, para atender o contrato com a fabricante de cosméticos Natura e fornecer 25 toneladas de óleo da castanha-do-pará (também conhecida como castanha-do-brasil ou castanha-da-amazônia).

O retorno aos castanhais

De acordo com Bruno Dutra de Freitas, presidente da Comaru, “com o aporte, os cooperados conseguiram se preparar e comprar os equipamentos necessários para iniciar a atividade”. Os recursos foram usados para garantir o transporte até os castanhais, como a compra de canoas, motores, combustível, além dos alimentos, como arroz, feijão, macarrão, óleo, que os ribeirinhos levam para o acampamento, onde podem permanecer por até 4 meses.

O planejamento é o primeiro passo da jornada. “Nós precisamos pensar e calcular direitinho tudo o que a gente vai precisar, porque não dá pra voltar no meio da viagem”, conta Erivaldo. Apenas o deslocamento até os castanhais, que é sempre feito pelos rios, pode levar até três dias, dependendo do local onde será feita a coleta.

As castanheiras são árvores centenárias, típicas da floresta amazônica, que podem atingir entre 30 e 45 metros de altura. A produção dos ouriços começa antes mesmo das árvores chegarem aos 10 anos de vida. Cada ouriço pesa cerca de 2 kg, contendo em média 22 castanhas. A coleta é realizada somente após a derrubada dos frutos pelas chuvas ou pelo vento, até mesmo por representar risco aos extrativistas, caso sejam atingidos pelos ouriços.

Os extrativistas têm grande respeito e preocupação com os castanhais, pois é a partir deles que são obtidos grande parte do seu sustento. “Com o castanhal preservado, nós podemos passar essa atividade para os nossos filhos e netos. Todos nós temos que respeitar a natureza, pois cada vez que ela se manifesta, quem mais perde é o homem’”, conclui Bruno.

Como a ida aos castanhais modifica a rotina familiar, com as crianças acompanhando os pais, até o calendário escolar da região foi ajustado à safra da castanha para que as crianças não sejam prejudicadas. O período de coleta tem início na segunda quinzena de março e se estende até o começo de julho.

Ao final do período de coleta e ensacamento das castanhas, a produção é transportada para a Comunidade São Francisco do Iratapuru, onde é beneficiada. O processo de extração do óleo da castanha é totalmente manual, por meio da prensagem a frio das sementes secas, garantindo um produto 100% limpo, sem qualquer aditivo, cumprindo o estabelecido no contrato e garantindo um produto com a qualidade esperada pelo mercado.

A Reserva de Desenvolvimento do Rio Iratapuru, onde os ribeirinhos fazem a coleta, foi criada em 1997, mas o trabalho na região é realizado há mais de cinco décadas. A Comaru foi fundada em 1992, para proporcionar a união dos extrativistas, organizando a venda dos produtos e garantindo a negociação de um preço mais justo, sem passar pelos atravessadores.

Embora a castanha-do-pará tenha um nome tipicamente brasileiro, sendo chamada no exterior de “Brazil nut”, seu maior exportador mundial é a Bolívia – o Brasil é o segundo maior produtor. A produção nacional chega a 40 mil toneladas/ano, o mercado interno, no entanto, representa menos de 10% do consumo.

Linha de Crédito

Oferta de crédito adequada ao contexto das cooperativas e associações, a linha de crédito emergencial faz parte do Plano de Resposta Socioambiental à Covid-19, programa criado em abril de 2020 pela Conexsus para reduzir os impactos da crise provocada pela pandemia nas organizações comunitárias de produção rural e florestal em todo o Brasil.

O Plano foi construído em parceria com a UNICAFES (União Nacional de Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária), o CNS (Conselho Nacional das Populações Extrativistas) e o Fundo Vale. E conta com o apoio da rede de supermercados Pão de Açúcar, por meio do Instituto GPA, da Fundação Arymax, Fundação Good Energies, CLUA, Instituto Humanize, B3, USAID, NPI Expand, por meio da Palladium, PPA e SITAWI.

Os financiamentos, realizados até dezembro de 2020, beneficiaram 82 negócios comunitários de impacto socioambiental, com o desembolso de mais de R$ 6,4 milhões – alcançando 15,3 mil produtores familiares em mais de 33,4 mil hectares. As principais cadeias beneficiadas pela linha foram as do açaí, castanha, cacau, hortifrúti e polpas de frutas.