Fragilidades atrasam bioeconomia

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Mapeamento em seis países da Pan-Amazônia revela que 65% das cooperativas e associações do setor locais operam em nível incipiente a básico

Por Sérgio Adeodato  — Para o Valor Econômico, de São Paulo

Amêndoas de cacau beneficiadas pela Cooperar, no Acre, vão para uma agroindústria de insumos para chocolates finos — Foto: Divulgação

Com potencial para movimentar R$ 38,5 bilhões até 2050, a bioeconomia na Amazônia esbarra na fragilidade do cooperativismo local. Um levantamento do Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) em seis países da Pan-Amazônia revela que 65% das cooperativas e associações do setor locais operam em nível incipiente a básico. Somado às dificuldades logísticas, esse quadro limita o avanço dos produtos da sociobiodiversidade, achata a renda das comunidades e ameaça o uso sustentável da floresta.

“É preciso dar visibilidade e dinamizar esses empreendimentos historicamente desassistidos”, diz Pedro Frizo, diretor de programas e inovação do Conexsus, à frente da plataforma Desafio Pan-Amazônia, que registra dados sobre o perfil dos negócios comunitários, marcos regulatórios e acesso a financiamento e mercados, visando subsidiar políticas e investimentos. Financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o mapeamento abrange 712 coletivos e organizações, entre as quais 187 cooperativas.

A maior parte reúne agricultores familiares, extrativistas e população indígena, com faturamento anual de até US$ 60 mil. “Há demanda por soluções de infraestrutura, regulatórias e melhorias das cadeias produtivas diante de uma economia ainda incipiente em termos de agregação de valor”, diz Frizo. O amadurecimento é de longo prazo e só 1,9% das cooperativas estão em nível avançado de operações – acessam crédito com regularidade, beneficiam produtos e mantêm práticas sustentáveis.

Desde 2020, a Conexsus repassou R$ 46 milhões de crédito para acelerar negócios comunitários. Segundo Frizo, a assistência técnica segue como um grande gargalo e cenário requer avanços de políticas sobretudo associadas a sistemas agroalimentares, expandindo as conexões de maior valor para além do fornecimento local e o encadeamento com outros setores. Recente estudo do Conexsus indica que só 7% dos negócios comunitários na Amazônia brasileira interagem com empresas.

“O desafio está em criar condições para que investimento, mercados e desenvolvimento territorial avancem de forma mais coordenada, olhando para a sociobioeconomia em escala”, diz Gabriel Azevedo, chefe da unidade de coordenação da Amazônia no BID. O banco mobiliza US$ 5 bilhões em recursos de cooperação internacional para o setor, incluindo projetos com 3,7 mil bioempreendimentos nos países amazônicos.

A necessidade de desenvolver a base produtiva na floresta tem atraído inovações em finanças, caso do Eco Invest, programa do Tesouro Nacional para atrair capital comercial dos bancos a projetos sustentáveis. Neste ano, em seu quarto leilão, foram homologados R$ 3,1 bilhões de fomento com potencial para alavancar R$ 13,2 bilhões em investimentos na bioeconomia, turismo sustentável e infraestrutura na Amazônia Legal.

“O fortalecimento institucional e a educação financeira são críticos para o sucesso da sociobioeconomia”, diz Manoel Serrão, superintendente de projetos do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), instituição que desenvolveu mecanismo de financiamento inovador – o Amazônia Viva – em conjunto com a Natura e a VERT Securitizador a . Voltada a cooperativas, a iniciativa combina a oferta de crédito via certificado de recebíveis do agronegócio (CRA) e recurso filantrópico. O primeiro instrumento se destina à antecipação de pagamento da produção como capital de giro, enquanto o segundo apoia a assistência técnica dos empreendimentos.

“O fortalecimento institucional e a educação financeira são críticos para a sociobioeconomia”
— Manoel Serrão

“O mecanismo materializa a nossa crença de que a bioeconomia precisa de instrumentos financeiros desenhados para a realidade dos territórios”, diz Angela Pinhati, diretora de sustentabilidade da Natura. O modelo envolve 24 cooperativas em cadeias como a da castanha-do-Brasil, com investimentos de R$ 44 milhões.

Em políticas públicas, o Prospera Sociobio, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, prevê R$ 70 milhões para fomentar a interação entre instituições de ciência e tecnologia, cooperativas e empresas na Amazônia. São necessárias soluções de maior valor comercial em cadeias como do cacau, sementes e castanha. “É muito custo e trabalho para pouca receita, e quem não consegue continuar migra para a ilegalidade, como garimpo e madeira”, diz Reginaldo Freitas, presidente da Associação de Moradores Agroextrativistas do Lago do Capanã Grande, em Manicoré (AM).

Freitas reforça que o cooperativismo é importante para mediar negociações, eliminar atravessadores e acessar crédito, como ocorre na Associação de Produtores Agroextrativistas da Colônia do Sardinha (Aspacs), em Lábrea (AM), que retomou o funcionamento e hoje, liderada por mulheres, fatura R$ 3 milhões por ano.

Em região sob pressão do desmatamento, produtores de reservas extrativistas têm como carro-chefe o óleo de andiroba, com capacidade de 10 toneladas ao ano, além da manteiga de murumuru, fornecidos para indústrias de cosméticos. “Chegaram novos projetos que geram renda sem desmatar”, conta Sandra Barros, vice-presidente da Aspacs, que atualmente, beneficia ouriço de castanha para fornecimento à fabricação de bioplástico em Manaus.

Mapeamento da Embrapa sobre a necessidades de tecnologia em cooperativas de castanha, babaçu, cupuaçu e açaí, reduzindo condições precárias de trabalho na coleta, resultará na liberação de R$ 100 milhões pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para compra de máquinas com assistência do Sebrae.

“Normalmente, somos apoiados e abandonados”, lembra José Camilo, presidente da cooperativa agroextrativista Cooperar, em Boca do Acre (AM), que tem o diferencial do cacau produzido em várzea. O produto abastece uma agroindústria local que fabrica insumos para chocolates finos, além de óleos de castanha, tucumã e gergelim. “Essa variedade permite trabalhar o ano todo”, conta ele.

Confira a reportagem no link a seguir: https://valor.globo.com/google/amp/publicacoes/especiais/cooperativismo/noticia/2026/08/18/fragilidades-atrasam-bioeconomia.ghtml