De Nova York, Quito rumo à COP 31: a agenda internacional da Conexsus para fortalecer a sociobioeconomia como solução climática do Sul Global

Voltar para Notícias

Por Fabíola Zerbini, diretora executiva da Conexsus

A Conexsus vem ampliando sua atuação internacional para posicionar a sociobioeconomia como uma solução climática global, conectando as experiências e capacidades dos territórios às agendas de financiamento, políticas públicas, mercados e cooperação internacional. Nossa aposta é que fortalecer as economias lideradas por povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares é um caminho estratégico para enfrentar a crise climática, conservar a biodiversidade e promover desenvolvimento econômico com justiça social.

Essa agenda ganhou força nos últimos meses, com articulações durante a Climate Week, em Nova York, e o GET Forum, em Quito, e terá continuidade na COP31, na Turquia. São espaços distintos, mas conectados por uma mesma estratégia: mobilizar recursos, construir alianças, ampliar a integração pan-amazônica e fortalecer a voz política do Sul Global nas decisões sobre clima e desenvolvimento.

 

Nova York: conectar territórios, políticas e capital

Chegamos com uma agenda muito clara: conectar territórios, políticas e capital para fazer a sociobioeconomia ganhar escala — no Brasil, na Pan-Amazônia e na agenda internacional.

Começamos em diálogo com parceiros da filantropia e da cooperação internacional — Climate and Land Use Alliance (CLUA) e Erol Foundation — sobre um desafio que atravessa muitas das iniciativas que vêm emergindo no Sul Global: como coalizões construídas em torno de economias territoriais e lideradas por comunidades podem trabalhar melhor juntas e ampliar sua capacidade de incidência?

Nossa principal contribuição para essa conversa foi a necessidade de transformar a diversidade desses movimentos em mensagens e agendas políticas comuns: mais voz e agência para comunidades e territórios, mais acesso a financiamento e propostas sustentadas por evidências, capazes de influenciar políticas públicas, mecanismos financeiros e espaços internacionais de decisão.

Na agenda de financiamento, participamos de discussões com o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), EY, Capital for Climate e BTG Pactual. Também tivemos conversas com BID Amazônia e Skoll Foundation sobre o Implementa Sociobio, iniciativa que estamos construindo com o Banco do Brasil e o Instituto Clima e Sociedade (iCS).

O desafio é concreto: destravar $200 milhões de dólares em crédito rural e recursos do EcoInvest, especialmente da Linha 4, e fazer esse capital efetivamente chegar aos territórios, aos negócios comunitários e às famílias.

Mas dinheiro sozinho não resolve. Queremos que ele chegue com o pacote Conexsus: assistência técnica, fortalecimento da gestão dos negócios, acesso a mercados e instrumentos financeiros adequados às realidades territoriais. É assim que financiamento pode se transformar em renda, negócios mais fortes, conservação e desenvolvimento econômico.

 

Sociobioeconomia, financiamento climático e transição justa

As discussões em Nova York também trouxeram uma questão que considero fundamental: como financiamos a transição e o que, afinal, entendemos por uma transição justa?

O Brasil pode ser um grande laboratório desse novo financiamento da transição ecológica. E, nesse contexto, precisamos deixar de olhar para a sociobioeconomia como um conjunto de cadeias de nicho.

Estamos falando da construção de um novo modelo de uso da terra, no qual natureza e pessoas estejam no centro da equação econômica. Um modelo capaz de gerar renda e desenvolvimento e, ao mesmo tempo, reduzir risco climático, risco hídrico, risco social e riscos relacionados à própria segurança alimentar.

Para nós, sociobioeconomia também é transição justa.

É mitigação, porque promove modelos de uso da terra menos carbono-intensivos e capazes de conservar e regenerar florestas e outros ecossistemas.

É adaptação, porque diversifica renda, fortalece sistemas produtivos e aumenta a resiliência dos territórios.

É desenvolvimento econômico, porque transforma biodiversidade, conhecimento e organização territorial em oportunidades concretas de geração de renda e prosperidade.

E é justiça climática porque coloca povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e suas organizações como agentes econômicos e políticos da transição — e não apenas como beneficiários de recursos climáticos.

Essa perspectiva esteve presente também nas discussões do Climate Summit, na Assembleia Geral da ONU, e nos encontros sobre implementação climática e economias territoriais.

Ainda são poucas as representações desses atores nas salas onde as grandes decisões sobre clima e financiamento estão sendo discutidas.

Precisamos mudar isso com urgência: não apenas recursos chegando aos territórios, mas voz e poder dos territórios chegando aos espaços de decisão.

Construir mercados e ampliar a escala das economias territoriais

Em um encontro realizado na sede da Porticus, com parceiros como Erol Foundation e Ambition Loop, participamos da discussão “Bioeconomy for Food Systems: From Opportunity to Scale”, que reuniu empresas compradoras como Nestlé, VEJA e Raia, além do Banco do Brasil.

Minha principal mensagem foi que a sociobioeconomia não pode continuar sendo tratada como uma coleção de pequenos projetos.

Para ganhar escala, ela precisa se organizar em arranjos econômicos mais complexos, conectando famílias, negócios comunitários e cooperativas a empresas compradoras, mercados, assistência técnica, diferentes instrumentos financeiros e políticas públicas.

É justamente essa arquitetura que estamos tentando construir na Conexsus.

O capital é fundamental — e instrumentos como Pronaf, Fundo Clima e agora Eco Invest abrem uma janela extraordinária. Mas capital sozinho não resolve. Precisamos de originação nos territórios, negócios preparados, compradores comprometidos, assistência de longo prazo, mecanismos de redução de risco e, também, métricas capazes de demonstrar não apenas retorno financeiro, mas geração de renda, conservação, resiliência e quanto valor permanece nos territórios.

Essa discussão também se conectou à agenda de implementação dos compromissos climáticos assumidos durante a presidência brasileira da COP30 e aos preparativos para a COP31, em Antalya.

Não é hora de baixar a barra. É hora de acompanhar o que foi prometido, proteger o que foi conquistado e pressionar para que essas agendas avancem.

Ao final da passagem por Nova York, uma reflexão sintetizou parte importante das conversas:

Escala não é apenas mais capital. É construir mercados, instituições e políticas — e, ao mesmo tempo, garantir que os territórios que sustentam essa nova economia tenham poder para definir seus caminhos.

Quito: fortalecer a integração pan-amazônica

Depois de Nova York, a agenda internacional da Conexsus teve continuidade em Quito, no Equador, durante o GET Forum 2026, promovido pelo BID Lab. O encontro latino-americano reuniu iniciativas, organizações e parceiros ligados à inovação, ao empreendedorismo e aos investimentos, com forte presença da agenda amazônica.

 

 

A Pan-Amazônia precisa de mais integração. E a sociobioeconomia pode ser um caminho concreto para construí-la.

Como parceiros do BID Lab no Amazon BeEco, foi uma enorme satisfação conhecer melhor os projetos, as equipes do BID e os aliados dos diferentes países da região. Mais do que trocar experiências, estivemos ali com dois objetivos muito concretos.

O primeiro é fazer bem, e juntos, a reta final do Amazon BeEco. Fortalecer alianças entre parceiros pan-amazônicos do BID Lab e do ecossistema de inovação em sociobioeconomia, consolidar a integração regional e potencializar o trabalho de cada parceiro nos seis países. São mais de 130 bionegócios envolvidos em ações de assistência técnica, gestão, crédito e acesso a mercados. Um pipeline que precisa ganhar força, conexões comerciais e capacidade de atrair investimentos. Há muito conhecimento e capacidade instalada na região. Nosso desafio é conectar melhor tudo isso.

O segundo é começar a pavimentar o futuro. Abrimos conversas sobre uma possível nova fase do Amazon BeEco, com a ambição de conectar inovação, tecnologia, agregação de valor nos territórios e novos mecanismos de financiamento. Uma proposta ainda em construção, que queremos desenvolver em consórcio, reunindo capacidades complementares, novos aliados e investidores.

Foram dias de conversas importantes com equipes do Grupo BID, CERT, Impact Hub, parceiros da comunidade Skoll e Marcel Fukayama, presidente do nosso Conselho e Chief Impact & Movement Officer do B Lab. Encontros que reforçam o valor de construir pontes entre organizações, países e agendas.

COP31: fortalecer a voz do Sul Global e transformar reconhecimento em ação

É com essa trajetória que chegamos à COP31, em Antalya, na Turquia. Nossa prioridade será ampliar o reconhecimento da sociobioeconomia como solução climática, demonstrando que as economias lideradas por comunidades podem contribuir simultaneamente para mitigação, adaptação, conservação da biodiversidade e geração de prosperidade nos territórios.

Uma frente importante será a articulação em torno da Declaração do Sul Global sobre Sociobioeconomia como Solução Climática, que reúne organizações e movimentos de diferentes regiões para construir posições políticas comuns, fortalecer a cooperação Sul–Sul e ampliar a incidência nos espaços internacionais de decisão. Queremos avançar na construção de uma agenda compartilhada, sustentada por experiências territoriais e evidências concretas, que contribua para influenciar políticas climáticas, financiamento e investimentos.

Também levaremos à COP31 a experiência da Conexsus na construção de soluções financeiras para a sociobioeconomia, incluindo o Implementa Sociobio e as articulações pan-amazônicas do Amazon BeEco. O desafio é conectar o reconhecimento político dessas economias a mecanismos capazes de mobilizar capital, fortalecer negócios comunitários, estruturar mercados e garantir que os benefícios econômicos e ambientais permaneçam nos territórios.

Mais do que participar de debates, queremos que a COP31 ajude a transformar essa agenda em compromissos, alianças e oportunidades concretas. A sociobioeconomia precisa ocupar um lugar estratégico nas políticas climáticas e nas decisões sobre financiamento — com povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares reconhecidos como protagonistas dessa transformação.

 

Uma visão comum para o futuro da Pan-Amazônia

A passagem por Nova York e Quito reforçou a importância de conectar discussões internacionais sobre clima e financiamento às necessidades concretas das economias territoriais. Também evidenciou a relevância de alianças entre organizações que atuam em diferentes países, setores e frentes da sociobioeconomia.

E há uma dimensão política nessa construção que não podemos perder de vista. A Amazônia é uma só, mas nossas respostas ainda são muito fragmentadas por fronteiras, instituições e projetos. Em um contexto político regional e global de tantas disputas sobre os caminhos do desenvolvimento, integrar capacidades econômicas, organizações da sociedade civil e movimentos territoriais pan-amazônicos é mais do que uma oportunidade: é uma necessidade estratégica.

A Amazônia é uma só, mas nossas respostas ainda são muito fragmentadas por fronteiras, instituições e projetos. Integrar capacidades econômicas, organizações da sociedade civil e movimentos territoriais pan-amazônicos é uma necessidade estratégica para construir alternativas de desenvolvimento que mantenham a floresta em pé e fortaleçam o protagonismo de suas comunidades.

Essa é a agenda internacional que queremos seguir construindo. A COP31 é uma oportunidade importante, mas o trabalho vai muito além dela: precisamos transformar alianças em ação coordenada, financiamento em oportunidades reais para os territórios e reconhecimento político em mudanças concretas nas políticas públicas e nos mercados. A sociobioeconomia não é uma agenda periférica da transição climática. É parte das soluções que precisamos colocar no centro do debate global.