Por Naiara Bertão, Um Só Planeta — São Paulo

Trabalhadora prepara frutos de açaí na Amazônia. Cadeias produtivas como a do açaí movimentam a economia regional, mas grande parte das ocupações ainda ocorre fora do emprego formal. — Foto: Wagnerokasaki/Getty Images – Fonte: Um Só Planeta
Mais de 40 organizações ligadas a povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares lançaram nesta quarta-feira (26) a campanha “Sociobio nas Urnas”, que pretende levar aos candidatos das eleições de 2026 uma agenda de políticas públicas para ampliar a sociobioeconomia no país. A iniciativa reúne 46 propostas, distribuídas em oito eixos, e tem o apoio de chefs de cozinha como Rodrigo Oliveira, do Mocotó, Bel Coelho, Neide Rigo e Adriana Salay.
A campanha é suprapartidária e será apresentada a candidatos de todo o espectro político que disputam cargos federais, e não apenas aos postulantes à Presidência. A intenção é coletar compromissos públicos durante a campanha eleitoral para, depois das eleições, cobrar dos eleitos a implementação das medidas.
A articulação surgiu no âmbito do ÓSocioBio (Observatório das Economias da Sociobiodiversidade), a partir de uma proposta apresentada pela Conexsus. Segundo os organizadores, o documento foi construído desde maio em reuniões dos grupos de trabalho de Incidência e Eleições, além de encontros bilaterais e da compilação de notas técnicas produzidas pelo observatório.
A avaliação que sustenta a campanha é que a sociobioeconomia já movimenta a economia, mas encontra obstáculos para ampliar sua escala. Estimativas do ÓSocioBio apontam que o setor movimenta atualmente R$ 17,4 bilhões e responde por 525 mil postos de trabalho.
A base territorial também é expressiva. Segundo o observatório, territórios de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais ocupam cerca de um quarto do território brasileiro e mais da metade da Amazônia.
Um dos argumentos centrais da carta é que existe uma diferença histórica na distribuição de crédito, infraestrutura e políticas de apoio entre os diferentes modelos de produção rural. De acordo com dados apresentados pelas organizações, entre 2013 e 2025, 91,6% do crédito rural foi destinado a médios e grandes produtores, enquanto 8,4% foi para a agricultura familiar.
Mesmo dentro do Pronaf, programa de crédito voltado à agricultura familiar, o movimento identifica uma diferença significativa. Entre 2020 e 2024, foram destinados R$ 151,7 bilhões à produção de commodities e R$ 3,26 bilhões à sociobioeconomia, segundo os dados apresentados na campanha. A diferença, de acordo com as organizações, é de 46,5 vezes.
Para Fabíola Zerbini, diretora-executiva da Conexsus, a distribuição de recursos reflete uma assimetria histórica nas políticas públicas. “Há uma assimetria histórica nas políticas públicas, nos incentivos e nos recursos destinados aos diferentes modelos de uso da terra, e precisamos corrigi-la”, afirma.
Um dos problemas apontados está na documentação. Segundo a organização, produtores de comunidades tradicionais podem ter direito a determinadas linhas de financiamento, mas encontram dificuldades para comprovar documentalmente sua relação com o território e, consequentemente, nem conseguem iniciar o processo de acesso ao crédito.
A burocracia também aparece em outras etapas da cadeia. As organizações citam dificuldades relacionadas à emissão de notas fiscais e à classificação de produtos na Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) como obstáculos à comercialização e à logística.