Prática sustentável no plantio do cacau alia rentabilidade e reflorestamento

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Uso de sistemas agroflorestais garante aos cooperados da Camppax a produção de várias culturas, entre elas o cacau, ao mesmo tempo que contribui para a recuperação de áreas degradadas.

Apesar de estarem em diferentes áreas de São Félix do Xingu, com distâncias que podem chegar a 300 quilômetros, a consciência de que somente com a união é possível garantir melhores condições para o negócio e para a qualidade de vida é o que une as 350 famílias que fazem parte da Camppax, a Cooperativa Alternativa Mista dos Pequenos Produtores do Alto Xingu, no Pará. Criada em 2014, a cooperativa tem no cacau o seu carro chefe.

O município tem uma extensão territorial de mais de 84,2 mil km², ocupando a 6ª posição entre os dez maiores do Brasil. As dificuldades logísticas para o escoamento da produção de cacau são proporcionais ao tamanho do município, que conta com uma área que corresponde a duas vezes o tamanho do estado do Rio de Janeiro.

A Camppax reúne pequenos e médios agroextrativistas, que entregam de 2 a 20 toneladas da amêndoa do cacau por safra, que vai de março a outubro, e encontram na cooperativa as condições e apoio necessários para garantia de um pagamento justo pelo trabalho. A Linha de Crédito Emergencial oferecida pela Conexsus no primeiro semestre de 2020, por meio do Plano de Resposta Socioambiental à Covid-19, foi fundamental para compor o capital de giro da cooperativa e proteger os produtores dos atravessadores.

Pelo processo usual, do início da colheita do cacau até o produtor receber o pagamento podem se passar até 60 dias. Somente para a coleta, fermentação e secagem para transformação das sementes em amêndoas são 15 dias. O restante do tempo é gasto entre o transporte para a cooperativa e depois para as indústrias, a maior parte em São Paulo, e finalmente o prazo para o pagamento, cerca de 10 dias.

“Nós temos cooperados que colocam uma parte da produção no carro ou na moto, viajam 150, 200 até 300 quilômetros numa estrada ruim e atravessam a balsa, condicionando o pagamento à viagem de volta. Não posso dizer a ele que só terei como pagá-lo daqui a 45 dias”, explica Ilson Martins, gerente comercial e um dos fundadores da Camppax. “Se a cooperativa não conseguir pagar no momento em que a entrega é feita, o produtor é obrigado a procurar um atravessador, mas a remuneração é bem menor”, completa Ilson.

O acesso à Linha Emergencial foi a terceira parceria da organização com a cooperativa. “As instituições financeiras tradicionais oferecem diversas linhas de crédito, mas há muitas exigências burocráticas e as taxas de juros, mesmo reduzidas, tornam inviável os empréstimos”, explica Ilson.

As roças de cacau

O modelo de produção dos cooperados é baseado em sistema agroflorestais, combinando culturas agrícolas como o cacau, a banana e o açaí com árvores florestais como o ipê, aliando melhora da sustentabilidade e da rentabilidade, com geração de renda e melhoria da condição de vida dos produtores.

São Félix do Xingu é o maior produtor de pecuária do Brasil, gerando um alto grau de deflorestamento. A produção de cacau se desenvolve melhor com luz indireta do sol, e por isso precisa de outras árvores ao seu redor, o que torna a espécie ideal para projetos de recomposição de áreas degradadas.

A produção do cacau reinou absoluta no estado da Bahia durante anos, mas vem ganhando espaço na região amazônica – de onde, aliás, é originária. Em São Félix do Xingu, o interesse dos agricultores pelo cultivo do fruto aumentou há cerca de 10 anos e, atualmente, já é a segunda principal atividade econômica do município, gerando renda e aliando a floresta ao desenvolvimento da agricultura familiar na região.

A Camppax vem procurando o aperfeiçoamento na sua produção constantemente e já conseguiu, inclusive, a certificação orgânica, o que a habilita a fornecer amêndoas para produção de chocolates finos. As amêndoas vendidas para as indústrias são transformadas em pó e manteiga podendo então ter diversos usos alimentares e cosméticos.

“Se não tivéssemos obtido o financiamento da Conexsus, teríamos uma perda no volume produzido em torno de 35%. Nossa produção vem crescendo ano a ano. Em 2019, chegamos a 400 toneladas, em 2020, mesmo com a pandemia, alcançamos 550 toneladas. Até agosto de 2021, já tínhamos chegado em 520 toneladas e nossa expectativa é superar 600 toneladas até o final da safra, em outubro”, comemora Ilson.

Linha de Crédito Emergencial

Oferta de crédito adequada ao contexto das cooperativas e associações, a linha de crédito emergencial faz parte do Plano de Resposta Socioambiental à Covid-19, programa criado em abril de 2020 pela Conexsus para reduzir os impactos da crise provocada pela
pandemia nas organizações comunitárias de produção rural e florestal em todo o Brasil.

O Plano foi construído em parceria com a UNICAFES (União Nacional de Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária), o CNS (Conselho Nacional das Populações Extrativistas) e o Fundo Vale. E conta com o apoio da rede de supermercados Pão de Açúcar, por meio do Instituto GPA, da Fundação Arymax, Fundação Good Energies, CLUA, Instituto Humanize, B3, USAID, NPI Expand, por meio da Palladium, PPA e SITAWI.

Os financiamentos, realizados até dezembro de 2020, beneficiaram 82 negócios comunitários de impacto socioambiental, com o desembolso de mais de R$ 6,4 milhões – alcançando 15,3 mil produtores familiares em mais de 33,4 mil hectares. As principais cadeias beneficiadas pela linha foram as do açaí, castanha, cacau, hortifrúti e polpas de frutas.