PRONAF concentra 47% dos recursos em boi e soja e evidencia desigualdade no acesso ao crédito rural

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Levantamento do Banco Central mostra que recursos do Pronaf se concentram em commodities e reforçam desigualdades no acesso ao crédito rural

O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), criado em 1995, é uma das principais políticas públicas de crédito rural no Brasil. Voltado para agricultores familiares com renda bruta anual de até R$ 500 mil, o programa oferece financiamento com juros subsidiados para custeio agrícola, pecuário e investimentos em infraestrutura rural. Com o tempo, foram criadas linhas específicas para jovens, mulheres, povos tradicionais e produções agroecológicas, ampliando o alcance do programa e fortalecendo a sociobioeconomia.

Apesar dos avanços, levantamento recente realizado pelo O Joio e o Trigo, com base em microdados do Banco Central, revela que cerca de 47% dos recursos do Pronaf ao longo de 30 anos foram destinados à pecuária e à soja, totalizando aproximadamente R$ 240,5 bilhões. Em 2025, 92,8% do custeio pecuário foi destinado a bovinos, enquanto lavouras de soja, milho e café concentraram a maior parte do custeio agrícola. Esses números indicam que cadeias mais capitalizadas e integradas ao mercado recebem grande parte do crédito, enquanto culturas diversificadas permanecem subfinanciadas.

A concentração de crédito em commodities evidencia desafios estruturais no acesso ao financiamento rural para agricultores familiares e comunidades tradicionais. Pequenos produtores que investem em diversidade produtiva ou sistemas agroecológicos encontram barreiras para acessar o Pronaf, o que reforça a importância de políticas públicas que promovam inclusão financeira, fomentem a diversidade agrícola e fortaleçam o desenvolvimento sustentável no campo.

Além da concentração de crédito em commodities, o levantamento evidencia como o Pronaf influencia decisões produtivas no campo. Ao priorizar pecuária e soja, o programa pode reduzir incentivos para práticas agrícolas diversificadas e sustentáveis, como agroflorestas, hortas comunitárias e culturas tradicionais. Essa dinâmica reforça a necessidade de estratégias que integrem produção, conservação ambiental e desenvolvimento local, garantindo que os recursos públicos promovam tanto a segurança alimentar quanto a preservação da sociobiodiversidade no Brasil.


Leia a reportagem completa no O Joio e o Trigo